Um lugar pra publicar os textos que venho escrevendo nos últimos tempos. Travo uma luta danada com a poesia, ou com a famosa musa, que de inspiradora não tem nada. Vez em quando, vêm alguns insights. Então escrevo. Assumo: sou bissexto. Talvez trissexto.

Wednesday, April 26, 2006

APRENDIZAGEM

Aprender a olhar pores-do-sol silenciosamente
Enquanto a vida continua correndo ao lado
Em alta velocidade.
Enquanto vivos e mortos transitam
Sobre as cinzas das horas
Comprando o tempo com lágrimas e sangue.
Aprender a tocar levemente a mão da pessoa ao lado
Como se toca uma rosa aberta ao amanhecer
Embotada de perfume e orvalho.
Como convite pra continuar caminhando
Na corda bamba do mundo
Sem medo de perder-se na noite escura e vazia.
Aprender, finalmente, a sorrir como criança de colo,
Dar gargalhadas como criança feliz,
E guardar a esperança como eterna criança.

Edílson Paulo, 23.04.2006

Friday, April 21, 2006

ESTOU NO RECANTO DAS LETRAS


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www.recantodasletras.com.br

Tuesday, April 18, 2006

OUTROS POEMAS DESCONTENTES

ESTRELAS




ando meio
sozinho
disperso

carregando
nos lombos
um deserto.

ando z(en)
volvido
pra teu olhar

sem saber
se é meu
o teu amar

go-doce
sentimento
e ausência

que emudece
em discurso a
(in) coerência.

ando meio
dia a contar
estrelas.

que é a
sol
idão?
quem pode vê-la?




BALADA DO AMOR DE ROSA MARIA



aquele abraço tímido:
você tão frágil.
sou.
fomos viver na mesma casa.

depois você morava em você
eu morava em mim.

hoje, você em roma
eu, em paris.



Sunday, April 09, 2006

TEUS OLHOS

Quero embrenhar-me pelo labirinto dos teus olhos.
A tarde esvanece num poema.
Algumas folhas murchas fitam-me e fim.
Perdido não sei como encontrar-me.
A noite apresenta-se luminosa e confunde meu sonho.
Saio de ti e continuas em mim.

Friday, March 31, 2006

O MENINO DOS DESEJOS ESTRANHOS - PARTE UM

Duas vezes por dia o menino perguntava ao pai se podia ir ao bar tomar um copo de chope e o pai respondia por trás do jornal do dia anterior que não: criança não pode beber. Mas o garoto de sete anos era insistente e não admitia que o pai, tão magro e insosso pudesse, e ele, gordo e bonito como a mãe, ficasse debaixo daquela proibição.

Via nos desenhos animados crianças do mesmo tamanho que ele, bebendo copos enormes de chope. Então a mãe lhe perguntou em que horário passavam tais desenhos, pois ela mesma nunca ouvira falar de crianças tomando bebida alcoólica. O menino não lembrava, mas isso não tem importância, dizia, eu quero tomar chope, eu quero tomar chope, eu quero tomar chope.

Houve um dia, depois de muitos dias de aborrecimento, que a mãe não suportando mais aquela lamúria, pegou um chinelo de couro e sapecou nas pernas do menino. O menino chorou, sentado num cantinho de seu quarto, encolhido como um bichinho indefeso.

O pai estava morrendo de compaixão e se perguntava se não estavam, a mulher e ele, sendo demasiadamente rígidos com uma vontadezinha boba de criança, afinal, o que é que tem um copozinho de chope? Não teve, no entanto, coragem de falar isso com ela, que estava brava, cortando tomates maduros na mesa da sala e olhando a novela na televisão.

Thursday, March 30, 2006

O MAGO DAS PALAVRAS: CAIO FERNANDO ABREU

Tenho uma profunda admiração pelo escritor Caio Fernando Abreu. Meu primeiro contato com este genial contista deu-se há alguns anos, quando comprei em Feira de Santana o livro "Os dragões não conhecem o paraíso". Durante a viagem de ônibus, eu lia aqueles contos maravilhosos, cheios de vida e significado. Depois li alguns contos esparsos em antologias. Lendo ultimamente sobre sua vida conturbada, aumenta mais ainda a admiração. Leiam Caio Fernando Abreu, um mago das palavras.

Wednesday, March 29, 2006

Os Livros

Outro dia uma amiga perguntou-me o que eu estava lendo. Citei quatro livros: “Os machões não dançam”, do Mailer; “Angústia”, de Graciliano; “Los Alamos”, de Martin Cruz Smith e a Bíblia Sagrada. Esse é meu método de leitura. Vou tecendo uma rede, lendo alguns capítulos de um hoje, capítulos de outro amanhã, relendo tudo vez em quando. Não gostei muito de “Angústia” porque, na edição que tenho em mãos não há uma clara divisão capitular. Acho que os capítulos nos ajudam quando o livro está chato. Lemos até o ponto final e guardamos para amanhã, além de podermos dizer aos amigos que estamos no capítulo tal e etcétera. Meu filho Felipe gosta de livros de capítulos curtos. Como eu. Já Eliene, minha esposa, não se importa com essas bobagens. Ela pega o livro e lê, alucinadamente, sem parar, distante de todos nós. Não importam a quantidade de páginas ou o tamanho das letras, coisas que pra mim são fundamentais. Vejam que tenho besteira com os livros da Companhia das Letras. Gosto do design. É uma coisa que dá gosto de pegar. O livro. Não quero o livro somente pra ler. Quero o livro também para manusear, cheirar, passar as páginas rapidamente, como um crupiê que embaralha suas cartas. Quero o livro pra ler aos pouquinhos, como fiz com “Amor”, de Toni Morrison. Quem consegue comer aquele livro? Seria uma pornografia, um acinte ao bom gosto, faze-lo. É livro para ser lido aos poucos, saboreando, guardando para depois, como quando eu era menino e guardava um pedacinho de goiabada feita por Tia Pedra; guardava para me deliciar depois e fazer ironia com meus iramos gulosos que comiam tudo de vez. Os livros são meus amigos há muitos anos. Hoje faço uma rigorosa seleção para ler. Escolho o livro muitas vezes pela capa. Ou pelo título. Não li o livro da Bruna Surfistinha, mas pense no título: “O doce veneno do escorpião”. Que sacada legal, inteligente! Não sei como é o livro. Aliás, não gosto muito de livros-depoimento. Mas o título é demais. Gosto de livros velhos. Tenho uma edição de “No caminho de Swann”, do Proust, de 194... Aquelas páginas amareladas, aquele cheiro de antiguidade, de coisa genuína. Sem os livros o mundo seria uma grande merda.